.... but I beg to differ

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Das casas












Hoje pensei que te encontrava na porta, alegre como antes. Pensei que te seguia e me sentava contigo naquele banco improvisado já ali ao fundo, mesmo junto ao Centro Cultural Vila-Flor. Olhavas para mim, com esses olhos grandes, e era eu que desabafava, que barafustava contra o mundo, como de costume, e tu rias-te, assim sem condescendência. Rias-te porque sabes que eu expludo, deito tudo a baixo e queixo-me, mas, no fim, vou para casa e já passou. Pensei que aparecerias a correr, de vestido curto, mostrando as tuas pernas magrinhas. Como emagreceste nos últimos tempos, como irradias felicidade, como brilham os teus olhos. Gostava de poder dizer que esse brilho tem um pouco de mim lá dentro. E se calhar até tem. Mais do que isso, gostava de saber que esse brilho parte, no resto das partes, de dentro de ti.

Gostava de me sentar outra vez contigo na pedra fria, mas hoje, quando abri a porta, não estavas lá. Ainda dei um passo em frente e espreitei. Não te vi. Ainda olhei o telemóvel, mas também não te encontrei. Hoje sentei-me sozinha no banco de pedra e, quando olho para o lado, não sei porque lá não estás. Não sei porque não me barafustas, porque não me gritas, porque não te queixas a mim para depois, mais aliviada, ires também para casa. Hoje quando abri a porta não pude deixar de me sentir atada. Não pude deixar de pensar que te devia ter procurado. Não pude deixar de pensar que dava o mundo para voltar a ver esse brilho nos olhos.

Amanhã volto a abrir a porta, de sorriso nos lábios, sem condescendência. Um dia destes encontro-te lá.

Um comentário:

Mary disse...

Maravilhoso texto...